Aferição no SINAPI — Como Nascem os Coeficientes
Quando uma composição diz que assentar 1 m² de alvenaria consome 0,42 h de pedreiro, esse número não foi arbitrado: foi medido em obras reais, por método documentado, e carimbado na descrição com o AF_. Este guia abre o Capítulo 7 do livro Metodologias e Conceitos: o Modelo dos Fatores, a RUP e as 12 etapas que transformam cronômetro em coeficiente — o processo por trás das 10.093 fichas aferidas dos 171 Cadernos Técnicos.
A ideia central: produtividade não é média, é função de fatores
O método parte do Modelo dos Fatores (Thomas, 1987; aprimorado na tese do Prof. Ubiraci Souza, 1996, e aplicado internacionalmente pelo CIB): representar a produtividade de um serviço pela média dos casos observados erra para mais e para menos, porque o esforço unitário varia sistematicamente com as condições. Três famílias de fatores explicam a variação:
- Produto — o que está sendo feito: especificação, dimensões, detalhes de projeto (placa grande em ambiente pequeno = mais corte e perda);
- Processo — como está sendo feito: concretagem bombeada rende mais que lançamento com jerica;
- Organização do trabalho — equipe, patrulha de equipamentos e interferências do canteiro (tráfego, pedestres, redes existentes).
É por isso que o SINAPI publica variantes — por espessura, altura, método, tipo de solo — em vez de um número só: cada combinação de fatores relevantes vira uma composição, mapeada na árvore de fatores do Caderno Técnico.
RUP: o número que vira coeficiente
Para mão de obra, o indicador é a RUP — Razão Unitária de Produção:
RUP = Hh ÷ Qs (homens-hora ÷ quantidade de serviço — ex: Hh/m²)
Em cada obra estudada calculam-se a RUP diária (o dia a dia), a RUP cumulativa (acumulada do estudo) e — o conceito mais fino — a RUP potencial: a mediana das RUPs diárias que ficaram melhores que a cumulativa. Ela representa um desempenho desafiador, mas comprovadamente alcançável, pois foi observado em campo. O coeficiente publicado parte da RUP potencial associada aos fatores da variante e recebe um delta definido na análise — equilíbrio entre eficiência e realismo para uma referência que baliza contratos públicos.
As 12 etapas do processo
| # | Etapa | O que acontece |
|---|---|---|
| 1 | Estudo preliminar | Levantamento do estado da arte do grupo de serviços: normas, literatura, variantes de mercado e fatores que devem influenciar custo. |
| 2 | Identificação de obras | Seleção de canteiros reais, em diferentes regiões, onde os serviços do grupo estão sendo executados. |
| 3 | Instruções para a coleta | Protocolo de campo: o que medir, como registrar tempos, quantidades, equipes e condições de contorno. |
| 4 | Levantamento de dados | Medição in loco: horas de cada profissional, consumo de materiais, tempos produtivos e improdutivos dos equipamentos. |
| 5 | Processamento preliminar | Limpeza e consolidação dos dados de todas as obras estudadas. |
| 6 | Análise de dados | Mão de obra (RUPs), materiais (consumos e perdas) e equipamentos (tempos produtivo/improdutivo) analisados à luz do Modelo dos Fatores. |
| 7 | Regras para variação dos indicadores | Definição de como o coeficiente varia com cada fator (espessura, altura, método executivo…). |
| 8 | Análise de custo dos fatores | Verificação do impacto de cada fator no custo final do serviço. |
| 9 | Comparação com outras fontes | Confronto com referências de mercado e literatura técnica. |
| 10 | Composições propostas | Relatórios com as composições novas ou revisadas — coeficientes, itens e variantes. |
| 11 | Avaliação — manifestação da Caixa | Análise técnica da proposta pela engenharia da Caixa. |
| 12 | Revisão e publicação | Ajustes finais, consulta pública quando aplicável, e publicação com a marca AF_ na descrição. |
Onde ver o resultado da aferição em cada composição
- O AF_mm/aaaa na descrição — a data de consolidação da aferição do grupo;
- Os critérios de aferição na ficha do Caderno Técnico — o que a produtividade contempla (e o que fica fora do escopo);
- A árvore de fatores — as variantes que o Modelo dos Fatores gerou para o serviço;
- O histórico de revisões do caderno — quando o grupo foi re-aferido e o que mudou;
- As pendências (PE/PS) — insumos verificados em campo que ainda não têm preço coletado pelo IBGE.